7 de julho de 2026

07/07/2026 - A MOÇA DO ÔNIBUS


Há pessoas que entram na nossa vida sem nunca entrar de verdade.

Ela embarcava antes de eu, sempre no mesmo horário, quase sempre usava fones de ouvido, ela olhava a cidade pela janela como quem esperava que alguma coisa diferente acontecesse na mesma avenida de sempre, eu nunca soube seu nome, nunca trocamos uma palavra.

Mas, sem perceber, ela passou a fazer parte da minha rotina, era uma dessas presenças silenciosas que servem para passar o tempo, pois olhava pra ela imaginando o que ela ouvia nos fones de ouvido, se era uma playlist musical ou algum episódio de um podcast de true crime ou nenhuma destas coisas.

A convivência inventa intimidades estranhas, eu sabia que ela preferia o banco do lado esquerdo, que levantava poucos minutos antes do ponto onde desce que era o mesmo que eu desço, mas antes ela descia um ponto antes.

É curioso como podemos nos acostumar com alguém sem jamais conhecê-lo, então um dia, ela não apareceu, nem no outro e nem na semana seguinte.

No começo, procurei seu rosto automaticamente toda vez que a porta se abria. Depois passei a olhar com menos esperança, mas ainda olhando. Até que sem perceber, parei de procurar, foi aí que senti falta.

Porque a ausência não começa quando alguém vai embora. Ela começa quando a gente entende que a espera perdeu o sentido.

Nunca soube se ela mudou de emprego, de bairro ou de cidade, talvez apenas tenha mudado o horário, existem centenas de explicações perfeitamente razoáveis para o desaparecimento de alguém que nunca nos pertenceu, mesmo assim ficou um pequeno vazio.

É uma dor difícil de explicar, porque parece exagero sentir saudade de uma desconhecida. Mas não era exatamente que eu sentia falta dela, era da versão do mundo em que ela existia todos os dias, ocupando discretamente um lugar na paisagem da minha manhã.

A gente passa a vida colecionando pessoas assim: um velhinho que passeia com o cachorro na mesma esquina, a moça da padaria que já sabe nosso pedido antes de perguntarmos, o motorista que sempre acena, o rapaz que corre no parque ao amanhecer, são figurantes da nossa história e enquanto nós somos figurantes na deles.

E de vez em quando, um deles desaparece, sem despedidas, sem explicações, sem que ninguém faça um anúncio. O mundo continua exatamente igual, mas há um espaço vazio onde antes existia uma certeza, descobrimos que até os desconhecidos deixam saudade quando passam tempo suficiente dividindo o mesmo pedaço da vida.

Talvez viver seja isso: aprender que nem toda perda acontece depois de um grande amor, algumas chegam discretas, pela porta de um ônibus, na manhã em que alguém simplesmente deixa de embarcar.

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