Nunca gostei de visitar cemitérios, sempre dizia que o morto devia desaparecer sem cerimônias, mas algo aconteceu naquela segunda-feira chuvosa, estava eu deitada dentro de um caixão de mogno, vestindo um belíssimo vestido lilás, cercada por três coroas de flores artificiais, alguns parentes que moravam aqui na minha cidade, não havia nenhum parente de outras cidades, porém tem algumas vizinhas que costuma ir no velório de qualquer pessoa só para ficar fofocando sobre o morto.
Não sou escritora, muito menos uma versão feminina de Brás Cubas, eu vim contar somente o que eu lembro do meu dia anterior a este que estou aqui dentro do caixão aparentemente morta.
Domingo, acordei calcei as minhas chinelas após me levantar da cama, era exatamente 6 horas da manhã, fui até o banheiro para aliviar a minha bexiga, depois caminhei até a cozinha para preparar um delicioso e cheiroso café antes de me arrumar pra missa na igreja Santo Antonio que é uns três quarteirões pra cima da rua de casa.
Na igreja me sentei na primeira fileira para poder ouvir melhor a cerimônia do padre Pera, após a missa decidi passar no açougue "Novilha d'Ouro" para pegar um frango assado, pois veio as minhas duas filhas com seus respectivos esposos e meus cinco netos para almoçar a minha apetitosa receita de nhoque caseiro, durante a tarde fiquei no quintal regando as minhas plantinhas, enquanto as minhas filhas conversavam e vigiavam as crianças brincando de bola na rua, os maridos delas assistiam ao futebol. A noite chegou, todos já tinham ido embora, eu fiquei sozinha assistindo a TV e logo dormi, não me lembro como fui parar aqui no caixão, mas o importante é que acabou esta crônica da defunta.
